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O jovem precisa deixar o interior para ter oportunidades?

  • Foto do escritor: Anselmo Duarte
    Anselmo Duarte
  • 4 de ago.
  • 4 min de leitura

Essa pergunta faz parte da realidade de muitas famílias do interior paulista.

Quando termina o ensino médio, o jovem começa a procurar um curso, uma profissão e o primeiro emprego. Em muitos municípios pequenos, porém, as opções são limitadas. Nem sempre existe uma escola técnica próxima, os cursos disponíveis nem sempre correspondem aos empregos da região e, muitas vezes, é preciso viajar todos os dias ou mudar de cidade para continuar estudando.

Sair para estudar, conhecer outros lugares e viver novas experiências pode ser muito positivo. O problema começa quando sair deixa de ser uma escolha e passa a ser a única alternativa.

Uma preocupação que aparece nos números

É importante dizer que o interior paulista não vive uma única realidade. Existem grandes polos regionais, como Campinas, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Bauru e Presidente Prudente, que concentram universidades, serviços e oportunidades. Ao mesmo tempo, muitas cidades pequenas continuam perdendo moradores e enfrentando dificuldades para manter sua população mais jovem.

Dados divulgados pela Fundação Seade em julho de 2026 mostram que 230 municípios paulistas apresentaram redução populacional entre 2013 e 2026. Isso representa aproximadamente 35% das cidades do estado. O número de municípios com população em queda aumentou bastante: eram 93 no período anterior analisado, entre 2000 e 2013. A redução se tornou especialmente visível em áreas do noroeste paulista. Esses dados não mostram, isoladamente, quantos jovens deixaram cada cidade, mas revelam um sinal de alerta sobre o esvaziamento de muitos municípios. Fundação Seade

A dificuldade também aparece quando o jovem procura trabalho. Segundo estudo da Fundação Seade, com dados de 2022 e 2023, a taxa de desemprego entre os paulistas de 16 a 29 anos era de 14,3%. Entre os jovens de 16 a 18 anos, chegava a 34,6%. Para efeito de comparação, a taxa geral de desemprego no estado em 2023 era de 7,5%. Fundação Seade — Jovens e Mercado de Trabalho

Isso mostra que conseguir a primeira oportunidade ainda é um dos grandes obstáculos enfrentados pela juventude. E, nas cidades menores, o desafio pode ser ainda maior quando existem poucas empresas, poucos cursos profissionalizantes e dificuldades de transporte até os centros regionais.

Não basta oferecer qualquer curso

O Estado de São Paulo possui uma importante rede de ensino técnico, representada principalmente pelas ETECs. Essa estrutura precisa ser valorizada, fortalecida e ampliada. Mas não basta abrir vagas ou repetir os mesmos cursos em todas as regiões.

Cada parte do interior tem suas próprias características. Há regiões voltadas à agropecuária, à agroindústria, à saúde, ao turismo, à logística, à construção civil, ao comércio e à prestação de serviços. A formação profissional precisa acompanhar essas diferenças.

Em uma região agrícola, por exemplo, podem ser necessários cursos ligados à agricultura de precisão, operação e manutenção de máquinas, drones, irrigação, gestão rural, meio ambiente e processamento de alimentos. Em outros municípios, pode existir maior demanda por profissionais de enfermagem, cuidadores de idosos, informática, eletrotécnica, mecânica, administração ou logística.

O curso profissionalizante precisa conversar com a economia local. Caso contrário, corremos o risco de formar o jovem para uma vaga que não existe perto de sua casa.

A oportunidade precisa chegar às pequenas cidades

É evidente que não será possível construir uma ETEC completa em cada um dos 645 municípios paulistas. Mas existem outros caminhos.

O Estado pode ampliar a presença do ensino profissionalizante por meio de polos descentralizados, turmas instaladas em escolas municipais no período noturno, cursos itinerantes, unidades móveis e parcerias regionais. Também é possível combinar atividades on-line com aulas práticas presenciais, desde que o estudante tenha acesso adequado à internet, aos equipamentos e aos laboratórios necessários.

Precisamos olhar também para o transporte. Para quem mora em uma cidade pequena, em um distrito, assentamento ou propriedade rural, um curso localizado a 40 ou 50 quilômetros pode ser praticamente inacessível. A vaga existe no papel, mas não existe na vida daquele jovem.

Além disso, muitos estudantes abandonam os cursos porque precisam trabalhar, não conseguem pagar o transporte ou não têm recursos para alimentação e materiais. Criar uma vaga é importante, mas garantir condições para que o aluno conclua sua formação é igualmente necessário.

Formação precisa levar ao primeiro emprego

Existe ainda uma contradição conhecida: a empresa procura alguém com experiência, mas o jovem precisa da primeira oportunidade justamente para adquirir experiência.

As escolas técnicas não podem trabalhar isoladamente. É necessário criar uma ligação mais próxima entre ETECs, empresas, produtores rurais, hospitais, prefeituras, associações comerciais e entidades profissionais. Essa aproximação pode ampliar a oferta de estágios, programas de aprendizagem e experiências práticas.

A formação deve preparar o jovem para o trabalho que já existe e também para as novas ocupações que estão surgindo com a tecnologia, a automação e a inteligência artificial.

Permanecer também deve ser uma escolha

Não se trata de impedir que o jovem saia do interior. Cada pessoa deve ter liberdade para estudar, trabalhar e construir sua vida onde desejar.

O que não podemos aceitar é que milhares de jovens sejam obrigados a deixar suas famílias e suas cidades simplesmente porque a oportunidade não chegou até eles.

Quando uma cidade perde seus jovens, perde também energia, conhecimento, capacidade de empreender e força para construir o próprio futuro. Com o passar do tempo, diminui a mão de obra, o comércio enfraquece, a população envelhece e o município encontra ainda mais dificuldades para se desenvolver.

Por isso, fortalecer as ETECs, ampliar os cursos profissionalizantes, apoiar o transporte dos estudantes e aproximar a formação do primeiro emprego não são apenas políticas de educação. São políticas de desenvolvimento regional.

O jovem pode escolher conhecer o mundo. Mas precisa ter também o direito de construir seu futuro no lugar onde nasceu, onde vive e onde estão suas raízes.


 
 
 

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