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Internet no campo não é luxo: é infraestrutura

  • Foto do escritor: Anselmo Duarte
    Anselmo Duarte
  • 4 de ago.
  • 6 min de leitura

Durante muito tempo, quando se falava em infraestrutura rural, pensava-se principalmente em estradas, pontes, energia elétrica e abastecimento de água. Todos esses itens continuam sendo fundamentais. Mas uma nova necessidade passou a fazer parte dessa lista: a conectividade.

Hoje, uma propriedade sem internet ou sinal de celular enfrenta limitações parecidas com as de uma propriedade sem estrada adequada. O produtor encontra dificuldades para administrar sua atividade, vender, comprar, acessar serviços e utilizar novas tecnologias.

A internet no campo não serve apenas para entretenimento. Ela se tornou uma ferramenta de trabalho, educação, saúde, segurança e comunicação.

Por isso, não pode mais ser tratada como luxo ou comodidade. Precisa ser reconhecida como infraestrutura para o desenvolvimento do interior.

A tecnologia avançou, mas o sinal não chegou a todos

Os dados mais recentes do IBGE mostram que o acesso está aumentando, mas a diferença entre cidade e campo continua grande.

Em 2025, o serviço de telefonia móvel funcionava em 96,1% dos domicílios urbanos brasileiros, mas em apenas 68% dos domicílios rurais. Isso representa uma diferença de 28,1 pontos percentuais. Em outras palavras, enquanto o sinal se aproxima da universalização nas cidades, muitas famílias rurais ainda vivem em locais onde a rede móvel não funciona adequadamente. IBGE — PNAD Contínua TIC 2025

Entre os domicílios rurais que não utilizavam internet, 8,9% apontaram como motivo a indisponibilidade do serviço na região. Nas áreas urbanas, esse problema representava apenas 0,4%.

A Anatel também mostra essa diferença. De acordo com o Plano Estrutural de Redes de Telecomunicações 2025–2029, a cobertura 4G alcançava 99,45% dos moradores das áreas urbanas, mas somente 44,72% dos moradores das áreas rurais, considerando os critérios e as estimativas da Agência em junho de 2025. Anatel — PERT 2025–2029

Esses números são nacionais e não significam que todo o interior de São Paulo esteja desconectado. Nosso estado possui regiões com boa infraestrutura e provedores locais bastante atuantes. Entretanto, ainda existem propriedades, bairros rurais, distritos e trechos de estradas onde o sinal é fraco, instável ou inexistente.

A média estadual pode parecer positiva e, mesmo assim, esconder comunidades que continuam sem atendimento.

A conectividade é a nova estrada da produção

Uma boa estrada permite que os insumos cheguem e que a produção seja transportada. A energia elétrica movimenta máquinas, conserva alimentos e mantém as atividades da propriedade. A internet passou a conectar o produtor ao mercado, ao conhecimento e aos serviços.

Hoje, ela é necessária para:

  • consultar a previsão do tempo;

  • acompanhar preços e cotações;

  • emitir notas e documentos;

  • movimentar contas bancárias;

  • comprar insumos;

  • vender produtos;

  • acessar crédito e seguro rural;

  • receber orientação técnica;

  • controlar estoques e custos;

  • acompanhar máquinas, lavouras e animais.

A própria política de Agricultura Digital do Ministério da Agricultura considera a conectividade uma infraestrutura essencial. O órgão compara sua expansão no campo ao processo de universalização da energia elétrica e a relaciona com agricultura de precisão, inteligência artificial, análise de dados e internet das coisas. Ministério da Agricultura — Agricultura Digital

Isso não vale apenas para grandes propriedades. Pequenos e médios produtores também dependem da internet para emitir documentos, fazer pagamentos, pesquisar preços e vender diretamente ao consumidor.

Quando a conexão não funciona, eles perdem tempo, precisam se deslocar até a cidade e ficam em desvantagem diante de quem possui acesso rápido e estável.

Não adianta comprar tecnologia se ela não consegue se comunicar

O campo está cada vez mais tecnológico. Máquinas agrícolas, sensores, estações meteorológicas, drones, sistemas de irrigação, câmeras e dispositivos de monitoramento produzem informações importantes para a tomada de decisões.

Mas parte dessa tecnologia depende de conexão.

Um sensor pode informar a umidade do solo e ajudar a utilizar água somente quando necessário. Um sistema de monitoramento pode alertar sobre um problema com animais, máquinas ou equipamentos. Uma câmera pode reforçar a segurança da propriedade. Um aplicativo pode registrar custos e acompanhar a produção.

Sem conectividade, muitos desses recursos funcionam de forma limitada ou exigem soluções mais caras.

É como comprar um veículo moderno e não ter estrada para utilizá-lo.

O estudante rural também precisa estar conectado

A internet passou a fazer parte da educação. Pesquisas, inscrições, cursos profissionalizantes, plataformas escolares e materiais didáticos são cada vez mais oferecidos de maneira digital.

Quando a conexão é ruim, o estudante da zona rural começa em desvantagem.

Ele pode ter um bom celular ou computador, mas não consegue assistir a uma aula, enviar um trabalho ou participar de um curso porque a internet cai ou a velocidade é insuficiente. Às vezes, precisa ir até a casa de um parente ou se deslocar até a cidade para concluir uma atividade.

O problema não se resolve apenas entregando equipamentos. É necessário garantir conexão que funcione, com velocidade e estabilidade adequadas.

A internet não substitui a escola, o professor ou a convivência entre os alunos. Mas amplia o acesso ao conhecimento e permite que cursos técnicos e profissionalizantes cheguem a comunidades menores.

Serviços públicos estão se tornando digitais

Bancos, documentos, impostos, benefícios, agendamentos e diversos serviços públicos passaram a ser acessados pela internet.

Segundo o IBGE, em 2025, 74,2% dos usuários brasileiros acessaram bancos ou outras instituições financeiras pela internet. O celular tornou-se uma ferramenta importante para pagamentos, transferências e consultas. IBGE — PNAD Contínua TIC 2025

A digitalização facilita a vida de quem está conectado, mas pode criar uma nova forma de exclusão para quem vive em uma área sem sinal.

Se o governo transfere um serviço para a internet, precisa considerar como será atendido o cidadão que não possui conexão adequada. Caso contrário, aquilo que deveria reduzir distâncias acaba criando mais uma barreira.

Para uma família rural, resolver presencialmente um problema pode exigir dezenas de quilômetros de deslocamento, gastos com combustível e perda de um dia de trabalho.

Conectividade também é saúde e segurança

Em uma emergência, conseguir fazer uma ligação pode ser decisivo.

Acidentes com máquinas, incêndios, problemas de saúde e ocorrências de segurança não escolhem endereço. Nas áreas mais afastadas, onde o atendimento naturalmente demora mais, a comunicação deveria funcionar de maneira ainda mais confiável.

A conectividade também abre possibilidades para o acompanhamento remoto de pacientes, orientação de equipes locais e troca de informações entre unidades de saúde e hospitais regionais.

Isso é especialmente importante para idosos, pessoas com deficiência, pacientes crônicos e famílias que vivem longe dos centros urbanos.

A internet não substitui médicos, ambulâncias ou postos de saúde. Mas pode aproximar o atendimento, melhorar a comunicação e evitar alguns deslocamentos desnecessários.

Não basta aparecer uma barra no celular

Conectividade de verdade não significa apenas existir algum sinal em determinado ponto.

É preciso avaliar:

  • alcance da cobertura;

  • estabilidade da conexão;

  • velocidade disponível;

  • preço do serviço;

  • quantidade de operadoras;

  • funcionamento dentro das propriedades;

  • cobertura das estradas;

  • capacidade para transmitir dados;

  • atendimento em situações de emergência.

Uma propriedade pode aparecer dentro da área de cobertura estimada e, na prática, receber um sinal fraco por causa do relevo, da vegetação, da distância da torre ou da capacidade da rede.

A própria Anatel informa que seus mapas são baseados em estimativas e podem não representar com exatidão a cobertura encontrada em cada local. Por isso, o planejamento precisa combinar os mapas técnicos com medições e informações fornecidas pelos próprios moradores. Painel de Cobertura Móvel da Anatel

O Estado também precisa participar

A regulamentação da telefonia é federal e cabe à Anatel fiscalizar as operadoras. Isso, porém, não significa que o Estado de São Paulo deva permanecer distante do problema.

O governo estadual pode:

  • mapear as áreas rurais sem cobertura;

  • identificar estradas e comunidades prioritárias;

  • articular municípios, União e operadoras;

  • facilitar o compartilhamento de torres e outras estruturas;

  • utilizar faixas de domínio de rodovias para implantação de infraestrutura;

  • apoiar projetos regionais;

  • conectar escolas e unidades de saúde;

  • estabelecer metas em contratos e parcerias;

  • acompanhar a qualidade real do atendimento.

Também é necessário valorizar os pequenos provedores, que muitas vezes levam fibra ou internet por rádio a locais pouco atrativos para as grandes empresas.

Não existe uma solução única. Em algumas áreas, a melhor alternativa será a fibra óptica. Em outras, poderá ser rádio, rede móvel, satélite ou uma combinação dessas tecnologias.

A política pública precisa definir onde estão os problemas, quais localidades serão priorizadas e quais resultados deverão ser alcançados.

O desenvolvimento não pode parar onde termina o asfalto

Conectar o campo é fortalecer a produção, ampliar o acesso à educação, facilitar serviços públicos e proteger famílias.

Assim como o poder público planeja estradas, pontes e redes de energia, também precisa participar do planejamento da conectividade.

Não se trata de fornecer entretenimento gratuito. Trata-se de criar condições para que quem vive e produz no interior possa utilizar as mesmas ferramentas disponíveis nos grandes centros.

A estrada liga a propriedade à cidade. A energia movimenta a produção. E a internet conecta o interior ao conhecimento, aos serviços e às oportunidades.

Internet no campo não é luxo. É infraestrutura, trabalho e desenvolvimento.

 
 
 

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