ETECs mais fortes para formar os profissionais de que o interior precisa
- Anselmo Duarte

- 4 de ago.
- 5 min de leitura

O ensino técnico pode mudar a vida de um jovem em pouco tempo.
Para muitas famílias do interior, uma ETEC representa a possibilidade de o filho concluir o ensino médio, aprender uma profissão e chegar mais preparado ao mercado de trabalho. Para quem já trabalha, o curso técnico também pode abrir as portas para uma nova atividade, uma promoção ou uma renda melhor.
São Paulo possui uma das maiores estruturas públicas de educação profissional do país. Em 2026, a rede reúne 230 ETECs e mais de 500 classes descentralizadas, presentes em 343 municípios paulistas, com mais de 200 opções de cursos. É uma estrutura importante, construída ao longo de muitos anos e que precisa ser valorizada. Centro Paula Souza
Mas uma rede desse tamanho também precisa ser permanentemente atualizada. O mercado de trabalho mudou, a tecnologia avançou e as necessidades das regiões não são as mesmas de alguns anos atrás.
A questão, portanto, não é apenas abrir novas escolas. Precisamos fortalecer as ETECs que já existem, modernizar seus laboratórios, ampliar as vagas onde há procura e aproximar os cursos da economia de cada região.
Ensino técnico precisa ter prática
Um curso técnico não pode existir apenas dentro da sala de aula. O estudante precisa colocar a mão na massa, conhecer equipamentos, resolver problemas e aprender situações que encontrará no ambiente de trabalho.
Isso exige laboratórios funcionando, computadores atualizados, ferramentas adequadas, materiais para aulas práticas e professores preparados para acompanhar as mudanças tecnológicas.
Um aluno de mecânica, eletrotécnica, enfermagem, informática, edificações ou agropecuária não pode concluir sua formação tendo apenas conhecimento teórico. Quando os equipamentos da escola estão ultrapassados ou são insuficientes para atender a turma, surge uma distância entre aquilo que o estudante aprende e aquilo que as empresas exigem.
O próprio Centro Paula Souza reconhece essa necessidade. Em 2026, foi aberto um procedimento para levantar especificações e preços de equipamentos destinados à modernização dos laboratórios das ETECs e Fatecs na área de controle e processos industriais. A iniciativa é positiva e mostra que atualizar os laboratórios é uma necessidade real e atual. Centro Paula Souza — Modernização de laboratórios
Em Itapeva, por exemplo, uma ETEC recebeu em 2026 investimentos superiores a R$ 2 milhões em reformas e equipamentos, incluindo 42 novos computadores para seus laboratórios. É um exemplo importante de modernização que precisa chegar, de forma planejada, às demais regiões do estado. Etec de Itapeva
Não adianta oferecer o mesmo curso em todos os lugares
O interior paulista é muito diverso. Cada região possui uma vocação econômica e necessidades profissionais diferentes.
No Oeste Paulista, por exemplo, existe forte presença da agropecuária, das agroindústrias, dos serviços de saúde, do comércio, da construção civil e do setor de transportes. Outras regiões concentram indústrias metalúrgicas, produção de alimentos, tecnologia, turismo, logística ou serviços especializados.
Por isso, a abertura de cursos não pode seguir apenas uma lista padronizada.
É necessário ouvir os municípios, os estudantes, os professores, as empresas, os produtores rurais, os hospitais, as associações comerciais e os sindicatos de trabalhadores. Essas informações devem ajudar a identificar quais profissionais estão faltando e quais atividades apresentam possibilidade real de crescimento.
Isso não significa colocar a escola a serviço de uma única empresa. A educação precisa continuar formando cidadãos, desenvolvendo conhecimento e ampliando horizontes. Mas também não pode ignorar a realidade econômica ao seu redor.
O objetivo deve ser equilibrar uma boa formação geral com conhecimentos técnicos que aumentem as chances de trabalho e desenvolvimento profissional.
Novas profissões também existem no interior
Às vezes, quando se fala em tecnologia, parece que estamos tratando apenas das grandes capitais. Mas a transformação tecnológica também está acontecendo no campo, nas oficinas, nos hospitais, nos escritórios, nas pequenas indústrias e no comércio das cidades do interior.
A agricultura já utiliza sistemas de localização, sensores, drones, máquinas automatizadas e análise de dados. Pequenas empresas precisam de profissionais de informática, marketing digital, administração e comércio eletrônico. Hospitais e clínicas necessitam de técnicos qualificados. A construção civil utiliza novos equipamentos, programas e métodos de planejamento.
Também precisamos preparar os jovens para áreas como:
agricultura de precisão;
manutenção de máquinas e equipamentos;
automação industrial;
energias renováveis;
programação e desenvolvimento de sistemas;
inteligência artificial;
logística;
enfermagem e cuidados com idosos;
meio ambiente e saneamento;
construção civil e infraestrutura;
turismo e economia criativa.
Os cursos devem acompanhar as mudanças, mas sem abandonar as profissões tradicionais que continuam necessárias em cada região.
Mais vagas, mas com planejamento
Em alguns municípios, há cursos muito disputados e jovens que não conseguem uma vaga. Em outros, determinadas turmas enfrentam baixa procura porque o curso oferecido já não corresponde às expectativas dos estudantes ou às oportunidades existentes na região.
Por isso, ampliar vagas não pode significar simplesmente aumentar números.
É preciso avaliar a procura, a evasão, a conclusão dos cursos e a entrada dos formados no mercado de trabalho. Quando houver demanda comprovada, as turmas devem ser ampliadas. Quando um curso apresentar pouca procura por vários períodos, será necessário entender o motivo e avaliar sua atualização ou substituição.
Também podemos aproveitar melhor as classes descentralizadas, que permitem oferecer cursos em municípios onde não existe uma ETEC completa. Essa estrutura pode ser ampliada por meio de parcerias com prefeituras e utilização de escolas públicas no período noturno.
Com planejamento regional, uma mesma ETEC pode atender várias cidades próximas, levando determinados cursos para onde existe demanda.
Escola e mercado precisam conversar
Outro passo importante é aproximar as ETECs do ambiente profissional.
As empresas podem colaborar com visitas técnicas, estágios, programas de aprendizagem, palestras, desafios práticos e até cessão de equipamentos, sempre com transparência e preservando a autonomia da escola.
Os professores também precisam ter oportunidades de atualização. Não basta comprar uma máquina moderna se não houver formação para utilizá-la nas aulas. O investimento em equipamentos deve caminhar junto com a valorização e a capacitação dos profissionais da educação.
Essa integração pode ajudar a enfrentar uma dificuldade conhecida: muitas empresas dizem que não encontram profissionais qualificados, enquanto muitos jovens dizem que não conseguem a primeira oportunidade.
A ETEC pode ser justamente essa ponte.
Fortalecer o que funciona e corrigir as diferenças
Defender ETECs mais fortes não significa dizer que tudo está errado. Ao contrário: significa reconhecer a importância dessa rede e trabalhar para que ela continue cumprindo sua missão.
Precisamos estabelecer um programa permanente de fortalecimento do ensino técnico no interior, baseado em quatro ações principais:
Modernização periódica dos laboratórios e equipamentos;
Ampliação de vagas nos cursos com demanda comprovada;
Criação e atualização de cursos conforme a vocação econômica regional;
Integração entre escolas, municípios, trabalhadores e setores produtivos.
Também é necessário acompanhar os resultados: quantos alunos ingressam, quantos concluem, quantos conseguem estágio e quantos encontram trabalho na área em que estudaram. Políticas públicas precisam ser avaliadas pela mudança que produzem na vida das pessoas.
Uma ETEC forte beneficia muito mais do que seus alunos. Ela ajuda as empresas a encontrar profissionais, atrai investimentos, melhora os serviços e fortalece a economia regional.
O interior não pode ser visto apenas como fornecedor de matéria-prima ou de mão de obra para outras regiões. Ele precisa formar seus próprios profissionais, desenvolver tecnologia e criar oportunidades para que os jovens possam construir seu futuro perto de suas famílias e de suas raízes.
Educação técnica de qualidade não é apenas preparação para o emprego. É uma ferramenta de desenvolvimento para todo o interior paulista.



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