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Ainda existem lugares no interior onde o celular não funciona?

  • Foto do escritor: Anselmo Duarte
    Anselmo Duarte
  • 4 de ago.
  • 5 min de leitura

Em pleno avanço do 5G, ainda existem propriedades, bairros rurais, distritos e trechos de estradas onde fazer uma ligação ou enviar uma mensagem pode ser difícil — ou simplesmente impossível.

Quem vive apenas na cidade talvez não perceba o tamanho do problema. O celular funciona em casa, no trabalho e nas principais avenidas. Mas basta seguir por algumas estradas do interior para o sinal desaparecer. Em determinados lugares, o morador precisa caminhar até um ponto mais alto, aproximar-se da rodovia ou deixar o aparelho parado em um local específico para conseguir alguma conexão.

Isso interfere no trabalho, nos estudos, no acesso aos serviços públicos e até na possibilidade de pedir socorro.

Município atendido não significa campo conectado

Um dos principais cuidados ao analisar os dados de telefonia é entender a diferença entre o município possuir cobertura e todo o seu território estar coberto.

Segundo o Plano Estrutural de Redes de Telecomunicações 2025–2029, elaborado pela Anatel, a tecnologia 4G já estava presente nas sedes de todos os municípios brasileiros em junho de 2025. Entretanto, a mesma análise estimava que o 4G alcançava 99,45% dos moradores das áreas urbanas, mas somente 44,72% dos moradores das áreas rurais.

A Anatel identificou ainda que 66% das localidades rurais brasileiras não possuíam cobertura 4G, enquanto nas localidades urbanas esse percentual era de 18%. Anatel — PERT 2025–2029

Esses dados ajudam a explicar uma situação aparentemente contraditória: no mapa geral, o município aparece atendido; na vida real, muitas áreas fora da sede urbana continuam com sinal fraco, instável ou inexistente.

É justamente por isso que não podemos avaliar a conectividade rural apenas pela existência de uma antena na cidade.

Ter internet em casa não significa ter sinal no caminho

Os números do IBGE mostram que houve um avanço importante no acesso à internet no campo. Em 2024, a internet era utilizada em 84,8% dos domicílios rurais brasileiros, contra 94,7% dos domicílios urbanos.

Em 2016, apenas 35% dos domicílios rurais utilizavam internet. Portanto, houve um crescimento expressivo em poucos anos. Mesmo assim, entre os domicílios rurais que continuavam desconectados, 12,1% apontaram a falta de disponibilidade do serviço na região como o motivo, enquanto nas áreas urbanas esse percentual era de apenas 0,9%. IBGE — PNAD Contínua TIC 2024

É importante entender que esses números medem coisas diferentes.

Uma propriedade pode ter internet por fibra, rádio ou satélite e, ainda assim, não possuir sinal de celular. A família consegue utilizar a internet dentro de casa, mas fica sem comunicação quando está trabalhando no campo, percorrendo uma estrada ou cuidando dos animais em uma área mais distante.

Por isso, a pergunta não deve ser apenas: “Existe internet nessa residência?”. Também precisamos perguntar:

  • O celular funciona dentro da propriedade?

  • Existe sinal nas estradas de acesso?

  • A conexão é estável?

  • É possível fazer uma chamada de emergência?

  • A velocidade permite estudar, trabalhar e acessar serviços?

  • O preço cabe no orçamento da família?

A falta de sinal interfere na vida cotidiana

Para o produtor rural, ficar sem conexão pode significar não conseguir consultar a previsão do tempo, verificar preços, acessar o banco, emitir documentos ou falar com fornecedores.

A tecnologia também está cada vez mais presente na produção. Máquinas, sensores, sistemas de irrigação, monitoramento de animais, drones e plataformas de gestão dependem de comunicação. O produtor pode investir em equipamentos modernos, mas não aproveitar todo o potencial desses recursos porque a conectividade não chegou à sua propriedade.

Para o estudante, uma conexão instável dificulta pesquisas, aulas, inscrições e cursos profissionalizantes. Uma atividade simples para quem mora na cidade pode se transformar em um deslocamento até a casa de um parente, uma praça com Wi-Fi ou a sede do município.

Na saúde, a falta de sinal dificulta o contato com postos, ambulâncias e familiares. Isso é especialmente preocupante para idosos, pessoas com deficiência, pacientes crônicos e moradores de propriedades afastadas.

Na segurança, o problema pode ser ainda mais grave. Em situações de roubo, acidente com máquinas, incêndio, enchente ou emergência médica, cada minuto importa. Não conseguir completar uma ligação deixa famílias e trabalhadores rurais mais vulneráveis.

O problema também está nas estradas

A falta de cobertura não se limita às propriedades. Existem trechos de rodovias e estradas rurais onde o telefone deixa de funcionar.

O relatório da Anatel aponta que, em 2025, aproximadamente 151,5 mil quilômetros dos 323,6 mil quilômetros de rodovias estaduais brasileiras possuíam cobertura 4G. Isso significa que, no conjunto do país, menos da metade da extensão analisada estava coberta por essa tecnologia. Anatel — PERT 2025–2029

Em uma rodovia movimentada, a ausência de sinal dificulta a comunicação após um acidente ou defeito mecânico. Em uma estrada rural, onde o movimento é menor e as distâncias são maiores, a situação pode ser ainda mais delicada.

Conectar as estradas também significa melhorar o transporte escolar, o escoamento da produção, a segurança pública e o atendimento de emergência.

Os mapas precisam mostrar a realidade

A própria Anatel alerta que seus mapas de cobertura são produzidos por estimativas que consideram localização das antenas, potência, frequência, edificações e relevo. Embora sirvam como referência, a Agência reconhece que essas previsões podem não representar com exatidão o sinal encontrado no local. Painel de Cobertura Móvel da Anatel

Esse é um ponto fundamental para qualquer política estadual de conectividade.

Precisamos de um Mapa da Conectividade Rural Paulista, construído não apenas com informações declaradas pelas operadoras, mas também com medições de campo e participação dos municípios, produtores, moradores e usuários das estradas.

Esse levantamento deve identificar:

  • propriedades e comunidades sem sinal;

  • distritos com cobertura instável;

  • escolas e postos de saúde desconectados;

  • trechos de rodovias e vicinais sem comunicação;

  • locais onde existe apenas uma operadora;

  • áreas onde a internet disponível é lenta ou cara.

Sem conhecer exatamente onde estão as falhas, corremos o risco de investir onde já existe atendimento e continuar deixando comunidades inteiras de fora.

Conectividade precisa ser tratada como infraestrutura

O interior precisa de boas estradas, energia, água e saneamento. Mas, no mundo atual, também precisa de conectividade.

Internet e telefonia não servem apenas para redes sociais. Elas fazem parte da produção, da educação, da saúde, da segurança e da prestação de serviços públicos.

O Estado não substitui a responsabilidade das operadoras nem a atuação regulatória da Anatel. Mas pode identificar as áreas prioritárias, articular municípios e órgãos federais, facilitar o compartilhamento de infraestrutura, apoiar projetos regionais e cobrar o cumprimento das metas assumidas.

Também pode aproveitar estruturas existentes, como torres, prédios públicos, escolas, postos de saúde e faixas de domínio das rodovias, para reduzir custos e ajudar a expansão das redes, sempre com critérios técnicos e transparência.

O primeiro passo é reconhecer o problema: sim, ainda existem muitos lugares onde o celular não funciona.

A tecnologia avançou, mas o avanço não chegou da mesma forma a todos. O desafio agora é fazer com que a conectividade ultrapasse os limites das cidades e alcance quem vive, trabalha e produz no campo.

Porque, no interior, ter sinal pode significar oportunidade. Em uma emergência, pode significar também segurança e vida.

 
 
 

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