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Conhecer para Desenvolver

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Por que o Brasil precisa valorizar estudos, pesquisas e planejamento para construir políticas públicas mais eficientes

“Nenhuma sociedade consegue construir o futuro sem conhecer profundamente a sua própria realidade.”

Existe uma característica que acompanha o Brasil há muitas décadas e que ajuda a explicar por que tantas políticas públicas produzem resultados abaixo do esperado: ainda valorizamos pouco os estudos permanentes sobre a nossa própria realidade.

O país possui universidades de excelência, pesquisadores reconhecidos, institutos de pesquisa, fundações e profissionais altamente qualificados. O problema não está na falta de capacidade técnica. O problema é que esse conhecimento raramente é organizado de forma contínua para orientar as decisões do poder público.

Como consequência, muitas ações governamentais surgem apenas quando o problema já está instalado. Em vez de prevenir, remediamos. Em vez de planejar, reagimos. E toda solução emergencial tende a ser mais cara, mais difícil de executar e menos eficiente.

Isso acontece na saúde, na infraestrutura, na segurança pública, na habitação e também na educação. Uma cidade cresce sem que alguém acompanhe suas transformações e, depois, faltam escolas. Uma região muda sua economia e passa a precisar de novos profissionais, mas os cursos continuam os mesmos. Empresas deixam de investir porque não encontram trabalhadores qualificados, enquanto jovens deixam suas cidades por falta de oportunidades.

Quando o problema finalmente chama a atenção do poder público, a solução já exige mais recursos do que exigiria se tivesse sido identificada e enfrentada com antecedência.

Essa lógica precisa ser invertida. O primeiro investimento de qualquer política pública deveria ser o conhecimento: conhecer quem somos, como vivemos e para onde estamos caminhando.

1. Diagnóstico regional permanente

Não basta realizar levantamentos ocasionais. O Estado precisa acompanhar continuamente as mudanças da população, da economia, do mercado de trabalho, da tecnologia e das necessidades de cada região.

No interior paulista, essa necessidade é ainda mais evidente. Cada município possui características próprias. Alguns têm forte vocação agrícola; outros vivem da indústria, do comércio, da logística, do turismo ou da prestação de serviços. Mesmo cidades vizinhas podem ter necessidades muito diferentes.

Sem um diagnóstico permanente, todas essas diferenças acabam tratadas da mesma maneira. E isso reduz a eficiência das políticas públicas.

O diagnóstico regional deve reunir e atualizar informações produzidas por universidades, centros de pesquisa, órgãos públicos, entidades empresariais, cooperativas, associações, hospitais, escolas técnicas, municípios e demais instituições capazes de contribuir com conhecimento real sobre cada território.

Mais do que produzir relatórios que ficam guardados, o objetivo deve ser construir uma base viva de informações, capaz de mostrar quais profissionais estão faltando, quais setores estão crescendo, quais atividades podem gerar novos empregos e onde o poder público precisa agir primeiro.

2. Formação integrada às necessidades regionais

Quando o Estado conhece a realidade de cada região, torna-se possível organizar melhor a educação.

Os cursos técnicos, tecnológicos e superiores deixam de ser definidos apenas pela oferta tradicional e passam a dialogar com aquilo que realmente está acontecendo na economia local.

Isso não significa limitar a liberdade de escolha do estudante. Pelo contrário: significa ampliar suas oportunidades, oferecendo formação próxima da realidade e das possibilidades existentes em sua própria região.

Um jovem que encontra formação compatível com as necessidades locais tem mais chances de construir sua vida perto da família, fortalecer sua comunidade e contribuir para o desenvolvimento da própria cidade.

3. Permanência e conclusão dos estudos

Entrar em um curso é apenas o começo. O verdadeiro desafio é conseguir concluí-lo.

Quem passou por uma universidade conhece essa realidade. Muitas turmas começam com grande número de alunos e terminam com uma pequena parcela deles formada. Em minha própria experiência, uma turma que começou com aproximadamente 150 estudantes chegou ao final com menos de 30.

Essa evasão não acontece apenas por falta de capacidade. Na maioria das vezes, ela está relacionada às dificuldades da vida: necessidade de trabalhar, transporte caro, falta de acesso adequado à internet, material escolar, distância, problemas familiares, saúde mental e ausência de perspectiva profissional.

Por isso, uma política séria de educação não pode preocupar-se apenas com o acesso. Ela precisa criar condições para que o estudante permaneça estudando até concluir sua formação.

Mas apoiar não significa criar dependência permanente. O papel do poder público deve ser ampliar as condições para que cada pessoa conquiste autonomia, experiência e capacidade de gerar sua própria renda.

Isso pode ocorrer por meio de estágios, aprendizagem profissional, bolsas vinculadas à qualificação, parcerias com empresas, apoio ao transporte, incentivo ao empreendedorismo e programas que aproximem o estudante do mundo do trabalho.

Quando o jovem consegue produzir sua própria renda durante a formação, ele desenvolve responsabilidade, independência financeira e perspectivas mais sólidas para o futuro.

4. Inserção profissional

A formação não termina com a entrega do diploma. Ela só alcança seu verdadeiro objetivo quando se transforma em oportunidade.

Por isso, escolas técnicas, universidades, empresas, cooperativas, hospitais, propriedades rurais e administrações municipais precisam atuar de forma integrada.

Quando o diagnóstico regional identifica as necessidades locais e a formação acompanha essa realidade, aumenta significativamente a possibilidade de que o estudante encontre trabalho próximo de onde vive.

Esse é um benefício para todos: o jovem encontra oportunidades, as empresas encontram profissionais, os municípios fortalecem sua economia e a população passa a contar com serviços de melhor qualidade.

5. Desenvolvimento regional

O resultado dessa política vai muito além da educação.

Regiões que conseguem formar profissionais alinhados às suas necessidades tornam-se mais competitivas para receber investimentos. Novas empresas chegam, os negócios locais crescem, a renda aumenta e os jovens deixam de enxergar a saída da cidade como única alternativa para construir uma carreira.

O desenvolvimento deixa de ficar concentrado apenas nos grandes centros e passa a alcançar também os municípios pequenos e médios, criando oportunidades para o estudante e para toda a sociedade local.

6. Como obter recursos sem aumentar impostos

Uma pergunta sempre surge quando se fala em novas políticas públicas: como financiar tudo isso?

A resposta não precisa passar pelo aumento de impostos ou pela criação de novas taxas.

O primeiro passo é utilizar melhor os recursos que já existem. O planejamento reduz desperdícios. A integração entre órgãos evita ações duplicadas. Parcerias entre Estado, municípios, universidades, setor produtivo e entidades da sociedade civil permitem compartilhar conhecimento, estrutura e investimentos.

Recursos de fundos estaduais, emendas parlamentares, convênios, programas de desenvolvimento e dotações já existentes podem ser direcionados para projetos estruturantes e permanentes, em vez de serem consumidos apenas por respostas emergenciais.

Planejar melhor também é uma forma de economizar dinheiro público.

7. O papel do deputado estadual

Um deputado estadual não administra escolas e não executa diretamente programas públicos. Mas possui instrumentos importantes para transformar boas ideias em políticas de Estado.

Ele pode propor leis, apresentar emendas ao orçamento, fiscalizar a execução das políticas públicas, promover audiências, articular universidades, municípios, setor produtivo e órgãos estaduais, além de acompanhar resultados e cobrar metas.

Mais do que criar novas despesas, seu papel deve ser ajudar o Estado a investir melhor, com base em informações confiáveis, prioridades claras e objetivos definidos.

Conclusão

O desenvolvimento não acontece por acaso. Ele começa quando uma sociedade decide conhecer profundamente sua própria realidade.

Sem diagnóstico, improvisamos. Sem planejamento, desperdiçamos recursos. Sem integração entre educação e desenvolvimento regional, continuaremos formando jovens para procurar oportunidades longe de onde nasceram.

O desafio não é apenas oferecer mais cursos ou construir mais escolas. O verdadeiro desafio é criar um ambiente em que conhecimento, formação, trabalho e desenvolvimento caminhem juntos.

Quando isso acontece, ganha o estudante, ganha a economia local e ganha toda a sociedade.

Artigo para publicação no site

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